Em meu lugar
Sinto o sal no gosto dos lábios, revivo o torpor que é estar em seus braços e lembro-me de quando tudo começou:
O cruzar de olhos, o ensaio de um sorriso e o arrepio.
onde você estiver lá é meu lugar.
Eu procurava o amor em jardins de cactus.
Vinha buscando o fruto em árvores erradas, e nas mordidas sentia o gosto azedo, que amarga no fim da boca.
Colhi amores podres, comidos pelo tempo e dor.
Foi preciso paciência – e um outro tempo – amadurecendo um fruto para colhê-lo doce, suave, terno e delicado.
Simples como naturalmente é.
Eu imaginava haver segredos por trás dos espinhos.
Mas é puro acaso que amores e espinhos se encontrem em botões abertos ou fechados.
A rima entre amor e dor é armadilha. O
verdadeiro fruto está ao alcance das mãos – mas é tão rasteiro, que quase não se vê.
É preciso passear sem fome para enxergá-lo redondo, vermelho.
Para então mordê-lo distraído como numa tarde de chuva.
O que eu faço com essa vontade de encurtar essa distância em um piscar de olhos?
De abraçar por horas, sem dizer nada e com um beijo te dizer tudo que milhares de poemas não conseguiriam dizer.
Porque mesmo longe, você é mais presente do que qualquer outra pessoa.
Meu coração pede atitudes. Pede seu colo e o seu silêncio.
O seu olhar que diz tanto.
O seu sorriso pertinho do meu.
Por amor, às vezes a gente se acostuma com pouco.
Menos que isso. Nos acostumamos com migalhas, com apenas uma mordida da fruta, enquanto o pomar da sombra à outra pessoa.
Somos nós tão pobres de espirito assim que preferimos migalhas do que nada, do que correr atrás de uma sombra só nossa.
Sei que cortar essas raízes não é tarefa fácil, mas se já não estamos juntos de verdade, não será essa mera ilusão a nos unir.
A compreensão atual do esporte vai além de uma simples prática corporal, o modelo enfatizado é visto como um estilo de vida que preza pela performance aliada ao consumo, refletindo diretamente no status e significação de cada um.
Tal modelo engloba a chamada arquitetura esportiva (criação de espaços destinados ao desenvolvimento de práticas esportivas “adequadamente”), princípio do rendimento máximo (embasado no rendimento máximo, competitividade máxima, estetização do sofrimento e ocultamento da dor), ideologia da juventude e da magreza e estímulo ao consumo de bens materiais.
A partir disto, é possível examinar a dimensão e influência deste modelo que afeta até mesmo o dia-a-dia, onde atividades cotidianas passam a “desenvolver-se” em função do desempenho, tornam-se práticas padronizadas, em prol do rendimento e aumento da capacidade. A movimentação humana prazerosa é banida.
O corpo é objeto de novos códigos, regras e práticas. As novas exigências primam pelo resultado, prevalece o trabalho mecânico, cuja precisão se dá através da ciência e da técnica. Não há espaço- na mídia- para as dualidades que coexistem no esporte, apenas são exaltadas as “glórias” esportivas e ocultam-se as lesões, dopings ou quaisquer outras coisas que venham macular a imagem do esporte.
Reescrevendo ditos populares com poesia,
eu diria que alguns poetas
reclamam de linha cheia.
Tem gente que enche a linha
pra falar que poesia
não tem utilidade.
Mas eu discordo e faço gracinha
para a linha rir: o peixe morre pela linha.
Corre mais rápido do que possamos perceber…
E quando nos damos conta percebemos que ele escorre por entre os dedos…
e nos deixa parados, perplexos…
ele vai indo, indo, devagarinho, mas numa velocidade que nos deixa espantados.
Quando menos percebemos nos perguntamos: poxa, mas já é abril?
É, esse bendito tempo que corre, corre, corre tão devagar que nem percebemos…
Busco versos onde não há.
Converso comigo,
deitado no sofá.
Neste sofá, e naquele,
a pele marcada
pelo tecido em relevo.
Revelo a mim mesmo,
que de fato, o passado
passa perto.
De pele morena,
Com alma serena.
Difícil é ser gente grande por necessidade. É não poder brincar, rir, cantar…
Difícil é precisar colinho, carinho, cuidado e ser grande demais para ganhar.
Vontade de ser criança novamente…
Esgueirou-se pelo corredor mal iluminado. Chegou ao fim da parede e, prendendo a respiração, lentamente moveu a cabeça para dentro da peça. Esperou que seus olhos se acostumassem com o breu. Aos poucos, as formas dos objetos começaram a ser traçadas em sua retina.
Num movimento mais cuidadoso ainda, adentrou naquela peça, com passos lentos e braços abertos, como se estivesse andando sobre uma corda bamba.
Quase antingindo seu objetivo, o coração na boca, pôs uma das mãos, lentamente, sobre o puxador do armário.
A luz da cozinha acendeu.
- Há! Os biscoitos não estão mais aí – disse uma voz feminina, cuja dona displicentemente pusera as mãos na cintura e moldava uma expressão de reprimenda no rosto.
- Ah… – retrucou, desanimado, um menininho cabisbaixo, que voltava para o quarto arrastando os pés.